Professor Doniseti
O exercício pela aplicação das novas regras de escrita para 0,43% das palavras da língua portuguesa, no Brasil, e para 1,42% das palavras utilizadas em Portugal já começou. As alterações da escrita no Brasil dizem respeito ao acréscimo das consoantes “k, w e y” ao alfabeto português, à extinção do trema, à acentuação gráfica e ao emprego do hífen.
Em vez de 23 letras, o alfabeto português passa a ter 26, com a incorporação do “k, w e y” que serão usados em siglas, símbolos, nomes próprios, palavras estrangeiras e seus derivados, o que já ocorre em nosso idioma, como em km, watt, Byron, byroniano, dentre outros. A novidade é que estas consoantes agora fazem parte do alfabeto da língua portuguesa, o que não se verificava antes.
O trema fica extinto oficialmente da nossa ortografia, já que na prática poucos usuários da nossa língua se davam ao trabalho de empregá-lo. Ele somente será utilizado em nomes próprios estrangeiros como Müller, Hübner e seus derivados hübneriano e mülleriano. A partir de agora, todo purista vai “aguentar” escrever frequentemente, tranquilidade, quinquênio, pinguim e linguiça, sem os famosos dois pontinhos sobre a letra “u”, um alívio para os alunos de redação que dificilmente se lembravam de assinalá-los na escrita.
Uma mudança que requer muita atenção por parte do usuário se refere à acentuação dos ditongos abertos “ei” e “oi”. A nova regra estabelece que em palavras paroxítonas não se usa o acento, mas nas oxítonas e nas monossílabas o acento permanece. Desse modo, não se acentua ideia, assembleia, heroico, mas herói, constrói, anéis, papéis e dói são acentuadas.
O acento agudo deixa de ser usado também nas palavras paroxítonas que apresentam o “i” ou “u” tônicos precedidos de ditongo. Assim, palavras como feiume, feiura, baiuca, Guaiba, tauismo deixam de ser acentuadas. Fica extinto oficialmente o acento agudo no “u” tônico antecedido de “g” ou “q” e seguido de “e” ou “i” das formas verbais rizotônicas “averigúe”, apazigúe e argúem, que passam a ser grafadas averigue, apazigue, arguem, sem o acento.
Outra mudança significativa ocorre nas palavras com a duplicidade das vogais “o” e “e”. Estes hiatos “oo” e “ee” que antes tinham o acento circunflexo na primeira vogal, com o novo acordo ortográfico, passam a ser grafados sem essa marca fonética. Voo, enjoo, creem, leem, veem, deem é a forma correta da grafia destas palavras.
Uma alteração importante se verifica em relação ao acento diferencial em palavras que apresentam a mesma grafia (palavras homógrafas). Agora não há mais o acento em “para”, presente do indicativo do verbo parar para diferenciar da preposição “para”. Não se acentua também “pela”, “pelo”, presente do indicativo do verbo pelar e substantivo para diferenciar de pelo ou pela, preposição mais artigo definido “o” ou “a”. Sem acento fica ainda "pera” (substantivo – fruta/pedra) para diferenciar da preposição arcaica per + a. A identificação destas palavras dar-se-á pelo contexto linguístico em que ocorrerem e não pela marca diferencial do acento. Este permanece apenas em dois casos: no verbo “pôr” para diferenciar da preposição “por” e no pretérito perfeito do indicativo do verbo “poder” (pôde) para diferenciar de “pode”, presente do indicativo.
Em relação às palavras grafadas com hífen, é preciso haver muita cautela. É muito complicado o emprego deste traçozinho linguístico, nos processos de formação de palavras da língua portuguesa. Sintetizando, podemos dizer que o hífen deixa de ser usado em palavras formadas por prefixos (ou falsos prefixos) terminados em vogal mais palavra iniciadas por “r” ou “s”. Assim, em antessemita, antissocial, antessala, antirrábica, ultrarromântico, autorregulamentação, extrarregimento, o hífen deixa de ser utilizado, aparecendo em seu lugar a duplicidade da consoante “r” ou “s”.
Todavia, curiosamente, o hífen permanece em prefixos terminados por “r”, desde que a palavra seguinte seja iniciada pela mesma letra. Ele permanece então na grafia de palavras como “hiper-realista”, “hiper-requintado”, “hiper-requisitado”, “inter-racial”, “inter-regional”, “inter-relação”, “super-racional’, ‘super-realista”, “super-resistente” e outras. O hífen permanece também em palavras formadas de prefixos (ou falsos prefixos) terminados em vogal, desde que o elemento seguinte da palavra começe com a mesma vogal ou com “h”. São os casos de “micro-ônibus”, “micro-organismo”, “anti-inflamatório”, “anti-imperialista”, “arqui-inimigo”, “micro-ondas”, “anti-herói”, “anti-higiênico”, “extra-humano”, “semi-herbácio”.
O novo acordo ortográfico não simplifica ou reduz as regras para a grafia das palavras da língua portuguesa; todavia unifica a escrita do único idioma do ocidente que apresentava duas grafias oficiais, a do Brasil e a de Portugal. Desse modo cerca de 230 milhões de falantes da língua portuguesa espalhados pelas terras de Brasil, Portugal, Angola, cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, São Tome e Príncipe e Timor Leste passam a empregar as mesmas regras ortográficas, o que facilitará a circulação de documentos oficiais e de livros entre esses países, sem ser preciso realizar um trabalho de tradução.
Ademais, com essas alterações, a língua portuguesa se fortalece, uma vez que poderá ser um dos idiomas oficiais da Organização das Nações Unidas (ONU), pois como está escrito no texto oficial do acordo, “ele constitui um passo importante para a defesa da unidade essencial da língua portuguesa e para o seu prestígio internacional”. Portanto, mesmo o acordo não trazendo uma simplificação ortográfica, temos muito a ganhar como nação e comunidade linguística.
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Síntese das mudanças: 0,43% do vocabulário brasileiro
HÍFEN
Não se usa mais, quando:
1) o primeiro elemento (prefixo) termina em vogal e o segundo começa com s ou r: "antirreligioso", "antissemita", "contrarregra", "infrassom".
2) o primeiro elemento (prefixo) termina em vogal e o segundo elemento começa com uma vogal diferente. Exemplos: "extraescolar", "aeroespacial", "autoestrada".
Exceção: quando os prefixos terminam em r e o segundo elemento começa com a mesma letra: "hiper-requintado", "inter-resistente" e "super-revista".
TREMA
Não existe mais, sendo usado apenas em nomes próprios e seus derivados.
ACENTO DIFERENCIAL
Não se usa mais para diferenciar:
1) "pára" (flexão do verbo parar) de "para" (preposição).
2) "péla" (flexão do verbo pelar) de "pela" (combinação da preposição com o artigo).
3) "pólo" (substantivo) de "polo" (combinação antiga e popular de "por" mais "o")
4) "pélo" (flexão do verbo pelar), "pêlo" (substantivo) e "pelo" (combinação da preposição “por” com o artigo “o”)
5) "pêra" (substantivo - fruta), "péra" (substantivo arcaico - pedra) e "pera" (preposição arcaica)
ALFABETO
Passa a ter 26 letras, ao incorporar "k", "w" e "y"
ACENTO CIRCUNFLEXO
Não se usa mais:
1) nas terceiras pessoas do plural do presente do indicativo ou do subjuntivo dos verbos "crer", "dar", "ler", "ver" e seus derivados. A grafia correta será "creem", "deem", "leem" e "veem"
2) em palavras terminadas em hiato "oo", como "enjôo" ou "vôo" que se tornam "enjoo" e "voo"
ACENTO AGUDO
Não se usa mais:
1) nos ditongos abertos "ei" e "oi" de palavras paroxítonas: "assembleia", "ideia", "heroica" e "jiboia"
2) nas palavras paroxítonas, com "i" e "u" tônicos, quando precedidos de ditongo: "feiúra" e "baiúca" passam a ser grafadas "feiura" e "baiuca"
3) nas formas verbais que têm o acento tônico na raiz, com "u" tônico precedido de "g" ou "q" e seguido de "e" ou "i": averigúe (averiguar), apazigúe (apaziguar) e argúem (arg(ü/u)ir), passam a ser grafadas averigue, apazigue, arguem.
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