Professor Doniseti
Pode-se observar pelas discussões e práticas de quem levanta a bandeira da inclusão, uma disposição em desenvolver a capacidade de conviver com as diferenças. Pelo menos, é o que se pode inferir das diversas ações que são implementadas atualmente neste sentido.
Quando falamos em diferenças, pensamos numa forma abrangente, já que elas perpassam por caminhos diversos, sendo, pois, concebidas de maneiras várias e distintas.
As diferenças econômicas são assustadoras, na medida em que criam um abismo intransponível entre uns e outros. Os ricos, quando querem, ocupam sempre espaços na sociedade, o que lhes confere status de superioridade em relação à grande maioria, que se acha na linha da pobreza ou submerso nos bolsões de miséria humana.
As disparidades são gritantes e trazem como conseqüência o estabelecimento de uma marca divisória, sinalizando a separação de uns e outros. Aqueles têm acesso aos serviços oferecidos à sociedade, aos bens de consumo, enquanto os outros não se acham nem em condições de lutarem pelos seus direitos. Para não irmos longe, basta dizer que, quando um pobre precisa recorrer à justiça, se não encontrar um apoio em alguém influente, dificilmente vê assegurado seus direitos. Vale dizer que as pessoas de bem, sérias e honestas têm muita dificuldade em conviver com esse tratamento diferenciado, cujo resultado decorre, quase que exclusivamente, do poder financeiro. Aceitar esse tratamento desigual seria jogar por terra todo o senso de justiça que elas sustentam vida afora.
Desse tratamento diferenciado, vem o sentimento de exclusão social, o que ocasiona dificuldades nos relacionamentos entre uns e outros. Os objetivos daqueles são a busca de mais espaços, de mais poder, de mais privilégios e de mais dinheiro; os outros sonham com emprego, com uma boa educação, com assistência médica, com uma moradia e com uma alimentação saudável. Enquanto uns ampliam suas conquistas, os outros lutam, a fim de não perderem o pouco daquilo que lhes resta.
Nesse contexto, entra em cena a sã consciência daqueles que buscam a implementação de políticas públicas que assegurem espaços e oportunidades aos que vivem marginalizados socialmente. Apesar dos questionamentos de alguns, por mais respeito que temos pelo contraditório, pela liberdade de expressão, reconhecemos nessas iniciativas um caminho para seguirmos na busca da dignidade e da cidadania. Sabemos que há distorções que devem ser corrigidas, mas abrir mão de tais políticas, jamais, pois seria uma forma de legitimar a miséria de muitos, pois a maioria do povo brasileiro não tem acesso aos bens e serviços básicos, fundamentais e indispensáveis à existência humana.
Houve um tempo em que muito se falava na possibilidade de construção de uma sociedade igualitária, utopia que ainda existe; porém hoje se fala em ações visando a uma convivência salutar com as diferenças. Isso, sem dúvida, representa um avanço, já que os homens, talvez em função da sede de poder, da ambição pelo dinheiro, ou da vaidade pessoal, demonstram, através de inúmeras experiências mundo afora, sua incapacidade de superar as desigualdades sociais e econômicas.
Quando cada um conseguir olhar para dentro de si e revir muitos conceitos que se contrapõem aos princípios do bem viver, a inclusão será verdadeira. A evolução do auto-conhecimento nos torna capazes de compreender melhor o outro. Assim, aprendemos a respeitá-lo, a superar preconceitos, desenvolvendo nosso espírito solidário e, conseqüentemente, aprimorando nossa capacidade de convivermos com as diferenças. Logo, se não temos condições de mudar o mundo, para dar a todos condições plenas de sobrevivência, podemos mudar nosso olhar sobre a realidade, apagando em nós a mancha do preconceito, da ambição, da auto-suficiência e do individualismo.
Desse modo, fazendo alguma coisa, mesmo que pequena e localizada, podemos contribuir muito em favor daqueles que precisam de apoio para o crescimento integral, um direito de todo ser humano.
Saber conviver com as diferenças significa cumprir um dever e garantir o direito do outro, independente de sua aparência física, de sua experiência, de sua capacidade visual, auditiva, tátil e de seus atributos psicológicos e cognitivos. Não podemos continuar sendo iguais, querendo conviver somente com os iguais. Precisamos construir um mundo melhor e este só se faz com as diferenças.
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